Por Luís Costa Pinto
O país caminha para sacramentar a reconciliação com a normalidade da luta política a partir do julgamento do “núcleo crucial” do golpe de Estado dado e derrotado em 8 de janeiro de 2023. Houve um golpe, ele foi freneticamente articulado ao longo de dois anos – desde março de 2021, como descrevo na reportagem em podcast Os Golpes do Bufão, que estará no ar nas plataformas de streaming a partir de 1º de setembro de 2025, em quatro episódios sucessivos – e os líderes e mentores dessa atmosfera golpista implantada no país a partir de 2016 serão julgados na medida de suas responsabilidades. É assim que tem de ser feito para liberar a pauta da sociedade a fim de que sigamos caminhando para a frente, sem retrocessos, sem escalas de revisionismo débil, como ora ainda ocorre no Brasil. Se é preciso ser assim no mundo da política, também é preciso que seja assim no mundo do jornalismo: eles se misturam, retroalimentam-se e se contaminam mutuamente. O resultado é um ambiente tóxico onde reputações morrem asfixiadas, versões distorcidas vicejam e a necessária frieza analítica sai prejudicada e prejudica a todos.
Nos últimos dias, em razão da necessidade de rever uma postagem que eu havia feito em meu perfil na plataforma X (à época, Twitter) no dia 26 de outubro de 2022, a escassos cinco dias do 2º turno da tensa eleição presidencial daquele ano, atestei as trapaças que a vida pode nos impor quando aceitamos a turbidez do clima político e saímos replicando informações dadas como líquidas e certas mesmo por veículos da mídia tradicional, ou por profissionais do jornalismo que têm uma trajetória de acertos acima da média em suas vidas profissionais. O post em questão já não está mais no ar – apaguei-o em definitivo, como eu mesmo propus durante uma audiência de conciliação para a qual fui chamado em torno do caso, mesmo que ele tivesse tido baixíssima circulação e tenha gerado escassa interação em minha timeline. Por que seguir na desavença se poderíamos estabelecer uma avença? O processo de conciliação me levou a uma reflexão mais ampla e a chamar a mídia para uma reconciliação geral.
Às 17h02min daquele 26 de outubro eu replicava uma postagem de Ricardo Noblat, jornalista do portal Metrópoles. Pouco mais de uma hora antes, Noblat havia feito o que chamo de “salve memória” em seu blog pessoal ancorado no Metrópoles: dizia que Alexandre Machado, servidor concursado do Tribunal Superior Eleitoral que havia sido demitido pelo então presidente da Corte, Alexandre de Moraes, na manhã daquele dia, tinha sido o responsável por um erro jornalístico paradigmático no ano 2000 e que havia levado o jornal Correio Braziliense à célebre manchete “O Correio Errou”. Com base na informação oficial do TSE, atestando que a demissão do servidor público se dera por “indicações de reiteradas práticas de assédio moral, inclusive por motivação política, que serão devidamente apuradas”, todos os veículos de mídia distribuíram seus conteúdos esquentando mais, ou menos, a informação-base. Machado havia alertado a estrutura do Tribunal que uma rádio determinada de Uberaba, em Minas Gerais, havia deixado de veicular a propaganda presidencial do PL de Jair Bolsonaro. Espertamente, advogados do PL usaram o alerta interno para abrir um pedido de investigação da campanha e denunciar “manipulação” da eleição – como pedia o manual de fabricação de golpe pelo bolsonarismo. A conduta profissional do servidor público, entretanto, não estava associada ao ato de campanha bolsonarista. Porém, foi assim que a sobreposição de atos foi lida e passado adiante naqueles tempos tão estranhos de guerra política. Em razão da espiral de fatos, elementos indiciais e suspeitas, para que tudo coubesse em breves 276 caracteres, eu mesmo escrevi que Machado havia sido “plantado” no TSE por Bolsonaro. Não foi, claro, por mais que o uso de seus alertas internos pela linha de frente bolsonarista tenha sugerido isso a diversos jornalistas. Nas guerras, como sabemos, a primeira a morrer é a frieza da verdade.
Em cima do que todos os portais passaram a noticiar naquele início de tarde 26 de outubro de 2022, Ricardo Noblat tirou de seu arquivo pessoal a história do erro em manchete que tanto pesa em sua trajetória de diretor de redação do Correio Braziliense e restaurou na mídia algo que tinha provocado impactos enormes e insondáveis na alma do antigo repórter Alexandre Machado. O peso do erro foi colocado sobre seus ombros. Ele tinha pouco mais de 20 anos à época. Hoje, rechaça a responsabilidade pelo erro do jornal – que foi um erro editorial, coletivo, fruto da permeável teia de controles de qualidade da informação que a publicação tinha. Agora, à luz de tudo o que já aprendemos sobre assédio moral, Machado se crê vítima de um enorme caso desse gênero. Com a replicação das notícias de sua demissão do TSE no curso de um processo que lhe imputava alguma forma de militância partidária, e que ele não conseguiu refutar de pronto em meio à polifonia de acusações daquela agenda de 2022, ainda teve de lidar com a pesada lembrança de um episódio que o havia destruído como profissional de jornalismo. Destruiu-o moralmente, internamente, no seu âmago, a ponto de tê-lo feito sair das redações pouco depois. Abraçou a assessoria de imprensa, concluiu outra graduação e se tornou servidor público da Justiça Eleitoral mediante concurso. Numa postagem ligeira, o tal “dedo nervoso” que nunca é bom conselheiro em ambientes turvos como o da campanha de 2022, repostei a postagem de Noblat e ainda deixei de dar a origem das informações (os principais veículos da mídia tradicional e mesmo a comunicação do TSE) que nos levavam (a mim, a Noblat, a vários outros jornalistas) a associar o servidor público à campanha do PL.
A partir desse ponto, olhando para trás, colocando-me na posição de Alexandre Machado, com quem não tenho nenhuma amizade ou inimizade particulares, revivi na memória os dois episódios de tentativa de assassinato de reputação que eu mesmo sofri. Ocorreram em 2004 e em 2005 (este, com uma recidiva depois, em 2011) e não perderei tempo em narrá-los aqui, pois estão muito bem contados no volume 3 de Trapaça – Saga Política no Universo Paralelo Brasileiro. Os dois processos de ataques à minha reputação, que só alvejaram o meu conceito, deram-se em razão de leituras políticas que terceiros tinham de mim. Não destruíram a minha reputação, construída com atuação de quase 40 anos de profissão, mas, momentaneamente, atingiram meu conceito público. Ao longo de duas décadas, tenho tratado de reconstituir a verdade dos fatos sobre a minha própria história profissional por meio de livros, roteiros para séries e podcasts e também dando sequência a uma atuação que leva as pessoas a me verem sob a minha perspectiva. Isso é bom, gratificante. Porém, dá um trabalho imenso. Disse a Machado que o vejo nessa mesma condição: ele é vítima, na projeção de sua autoimagem e nas consequências que essa guerra gerou para a vida profissional dele, desses tempos tão estranhos de propagação de ódios e de preconceitos vis. É preciso parar com isso, fazer também uma conciliação na mídia – tradicional ou não – e uma reconciliação com os métodos de produção jornalística.
É preciso estar alertas para a impropriedade de replicar informações de terceiros, mesmo a origem delas vindo de veículos tradicionais de informação, sem dar o endereço dessa origem e sem fazer uma checagem – mínima que seja – do impacto e da veracidade daquela informação. É preciso estar alertas para a impropriedade de replicar uma informação “histórica” difusa, como a culpa pela manchete “O Correio Errou”, sem voltar ao contexto original – porque corremos o risco de funcionar apenas como chanceladores de versões (o que, no caso, creio que foi o que se deu). É preciso que todos que, de alguma forma, temos peso no auxílio de formação de opinião pública, não deixemos que nossos “dedos nervosos” sejam usados para acionar gatilhos que levem a assassinatos de reputação. Sofri isso na pele. Sei como é duro, lento e doloroso o processo de reconstrução pública. Este é o momento para parar e refletir sobre isso porque é o momento em que as instituições públicas, republicanas e democráticas, estão se preparando para promover o mais simbólico julgamento de uma camarilha que foi a responsável pela criação desse ambiente tóxico entre nós. Todo o processo que levou o “núcleo crucial golpista” a sentar no banco dos réus obedeceu aos mais estritos ditames da Lei, da Constituição e do Código de Processo Penal. Que sejam julgados e recebam a pena máxima pelas culpas que têm nesse vertiginoso adoecimento da sociedade brasileira. E que esse momento nos inspire a voltar, também, à normalidade jornalística e nos permitam focar nos fatos – e não nas versões trazidas por outrem e que, replicadas, destroem mundos particulares.