Em 2005, o governo e seus aliados erraram nas primeiras reações às mentiras ditas pelo presidente do PTB à Folha de S Paulo. Agora, escutam calados a consolidação das versões como “memória histórica”. O preço dessa letargia virá em 2026
Por Luís Costa Pinto
No domingo 5 de junho de 2005, quando afirmou à jornalista Renata Lo Prete que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pagava uma mesada a deputados aliados para que votassem com os projetos do Executivo, o presidente do PTB estava mentindo.
A entrevista foi a manchete do jornal paulista no dia seguinte e provocou uma crise política que pôs Lula, o PT e a esquerda ante uma tentativa de impeachment destinada a abreviar a passagem daquele campo político pelo poder.
Lo Prete e a Folha não erraram em publicar o que dizia o então deputado: era notícia, de fato. Jefferson brincava de ser base do Palácio do Planalto até ali, mesmo com asco mútuo. Mas, todos erraram de caso pensado ao ocultar as origens dos maus bofes do petebista.
A força popular de Lula e de suas pautas de Estado, focadas em promover o resgate dos estratos mais miseráveis de um dos países mais desiguais do planeta, e a covardia de uma oposição que temeu a guerra que seria aberta nas ruas com um processo extemporâneo de deposição, preservaram o mandato presidencial.
Roberto Jefferson decidiu falar o que falou porque caiu numa armadilha retórica montada pela revista Veja. A publicação, que não quis mudar de última hora a capa que iria às bancas no sábado 4 de junho, era para ter sido ou outdoor da entrevista. Reticente em ser ágil, perdeu o “furo” e voltou a correr atrás para reingressar na história.
Uma semana antes, Veja tinha publicado um vídeo contendo pedido de propina por parte de um gerente dos Correios nomeado pelo PTB e demandado para ampliar as arrecadações extracurriculares da sigla presidida por Jefferson.
A gravação foi feita pela estrutura de assessoria de informação de Carlos Augusto Ramos, “empresário do ramo de jogos de azar”, como a revista da Editora Abril se referia à sua grande fonte de notícias do período compreendido entre 2003 e 2012. Era parte de um jogo de lobby empresarial destinado a forçar a estatal a crescer contratos com fornecedores próximos ao criador do termo “mensalão”. Conto essa história em detalhes no livro “Cachoeira – o bicheiro da República” que está indo para o prelo nos próximos dias.
Jefferson tinha por antagonista dentro do Planalto o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Os dois eram desafetos desde a CPI do PC, em 1992, quando foram os líderes de batalhões opostos no processo que levaria ao impeachment de Fernando Collor de Mello. Em 2003, usando uma outra gravação produzida por Cachoeira, mas, não vazada por ele, a revista Época, das Organizações Globo, tinha tentado derrubar Dirceu do governo.
Não conseguiu: as imagens, de 2002, mostravam um auxiliar da Casa Civil pedindo propina para si ao “empresário do ramo de jogos de azar” que àquela altura era o concessionário legal da operação da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). O ministro, coração, cérebro e pulmão do primeiro Palácio montado por Lula, não caiu. Ficou fraco e cambaleante.
O presidente do PTB sabia dos flancos abertos e usou sua verborragia e imensa oportunidade midiática para balançar o pilar roto da administração e derrubar “o capitão do time”, como o presidente se referia a Dirceu. A catatonia paralisante do PT só foi rompida pela aliança de personalidades externas ao partido e com liderança sobre bancadas no Congresso – Eduardo Campos e Ciro Gomes, do PSB, Renan Calheiros, José Sarney e Eunício Oliveira, do PMDB, José Múcio e Walfrido dos Mares Guia, do PTB, Aldo Rebelo (!), do PcdoB – que mergulharam no processo político e ajudaram a resgatar o trem palaciano que descarrilhava.
Lula se reelegeu em 2006 com uma aliança de campanha ampliada, fez um segundo mandato retumbante em resultados sociais e elegeu Dilma Rousseff sucessora. Em 2014, com Dilma reeleita sob o veredito popular de que o PSDB não retornaria mais ao poder, a costura de narrativas ensaiada na mentira do “mensalão” de Jefferson renasce embaixo do guarda-chuva mefistofélico da Operação Lava Jato. Amalgamando todas as mentiras, a mídia tradicional brasileira e seu festival de recalques, opiniões toscas e reportagens desprovidas da matéria-prima básica: a verdade.
Por algum tempo, a “República de Curitiba” enganou quase todo mundo em todos os lugares com as teses persecutórias da Lava Jato. Parecia que o país havia desmoronado numa enxurrada de atos de corrupção. Nada era sólido, em que pese o volume de condenações avexadas e viciadas, e tudo desmanchou no ar.
Lula, o PT e a esquerda enfrentaram o Estado Para-Legal do lavajatismo por dentro do sistema. Aceitaram as condenações, cumpriram as penas e foram contestar sentenças e legitimidade de juízes com as leis, as normas e a Constituição nas mãos. Venceram. Reagrupados em batalhões de diapasões amplos, deram musculatura à resistência democrática empreendida no país contra a trágica “Era Bolsonaro”. Vencemos todos.
Eleito para um terceiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva faz um governo de reconstrução das instituições, do aparelho de Estado, da máquina pública e da agenda de prioridades nacionais. Sabidamente, seria difícil que resultados populares surgissem logo. Erros e vicissitudes da vaidade humana refletidas em disputas internas dificultam ainda mais a velocidade de compreensão desses resultados.
Perturbada porque sabe que perdeu o protagonismo e a relevância, porque viu regressar ao poder da República, pelos meios democráticos, o lado político que sempre desejou derrotar humilhantemente, ainda quarando os próprios recalques no varal da incompetência, a mídia tradicional voltou a querer ser formadora de opiniões e de maiorias políticas. É por isso que celebram os “20 anos do mensalão”, um episódio que na verdade é vexatório para o Estado de Direito. O que disse Roberto Jefferson a Renata Lo Prete naquela entrevista de duas décadas atrás era uma mentira. A Ação Penal 470 provou que não havia “mensalão”, mesmo que 24 pessoas tenham sido condenadas a penas diversas por crimes outros que os ministros do Supremo Tribunal Federal da época julgaram existir. Contudo, “mensalão” não havia.
Celebrar 20 anos do “mensalão” é se jactar de um cretinismo. A Democracia brasileira e nosso Jornalismo que hoje respira por aparelhos merecem memória melhor do que essa. Restaurar a mentira, agora, é exercício retórico para manter a esquerda enclausurada em um cerco de acusações que não soube responder – nem há duas décadas, nem agora (e essa incompetência contemporânea é indesculpável).
Uma resposta
Prezado Sr. Luís, boa noite, meu nome é Carlos Frederico e sou admirador do seu jornalismo corajoso e investigativo. Com o intuito de colaborar, menciono alguns pequenos erros que o Sr, cometeu num dos seus volumes do livro “Trapaça”, os quais abordo na sequência.
No caso do discurso do Afonso Arinos em relação à cassação de Lacerda, esse episódio ocorreu durante o Governo JK, entre 56 e janeiro de 61, e não depois do golpe de abril de 64, sendo que Arinos, além de apoiar abertamente o golpe, aceitou ser Secretário sem pasta do Governo de Magalhães Pinto, um dos maiores subvertores da ordem democrática. Além disso, Mário Covas em dezembro de 68 não era líder do PSD, era líder do MDB, porque os antigos partidos políticos da República de 46 haviam sido extintos pelo Ato Institucional nº 2, em 27 de outubro de 1965, que instituiu o bipartidarismo. Outro equívoco foi dizer que Brizola em 63 era Governador do RS quando já era deputado federal pela Guanabara eleito em outubro de 62 com votação espetacular. Também fiz um pequeno guia jurídico e econômico para jornalistas progressistas. Caso tenha interesse em recebê-lo, me informe um e mail seu para o qual eu possa enviar esse trabalho para o Sr. Obrigado.