Por Luís Costa Pinto
Tarcísio de Freitas relançou-se candidato à presidência da República depois de ter refugado nos primeiros movimentos, quando poderia ter assumido que era um caminho viável para a direita brasileira mesmo com Jair Bolsonaro politicamente vivo. No curso de todo o processo que está a levar o ex-presidente para uma morte política – e ele morre como um porco no abatedouro; grunhiu escandalosamente até ser calado pelas medidas cautelares muito bem aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal – Tarcísio se acovardou, recuou, voltou a dar um passo à frente, achou que era um passo em falso porque assim o convenceram áulicos do bolsonarismo raiz, fechou-se em Copas no Palácio do Morumbi. Agora, olha para dentro da ala que o apoia, promove o check list de lealdades e se prepara para alçar voo nacional. No momento, não tem o hangar organizado em solo que lhe permita falar em céu de brigadeiro.
O primeiro grande obstáculo que se interpõe ao governador de São Paulo e o impede de decolar é a ausência de um candidato forte e evidente à sua sucessão, capaz de segurar para seu campo político a maioria do eleitorado do estado. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Guilherme Derrite, o nefasto secretário de segurança pública, será um dos flancos da campanha eleitoral. Ele é o responsável imediato pela tragédia que é a sensação de insegurança ora em curso em todo o território paulista, sobretudo na região metropolitana da capital, no litoral norte e também nas franjas de grandes cidades do interior como Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos e Jacareí. A Polícia Militar do estado de São Paulo consolidou a imagem de assassina nesse período. A ação das organizações criminosas, longe de ter sido contida, parece ter sido assimilada pelo Estado. Mais recentemente, Tarcísio passou a assistir à sua desqualificação como interlocutor da indústria paulista na reação ao tarifaço criminoso imposto por Donald Trump ao Brasil e à ascensão do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como nomes que estão a falar em nome de todo o país e dos atores econômicos nacionais nas mais complexas negociações de repúdio aos abusos cometidos contra nós e na abertura de novas correntes de comércio.
Havendo um cenário de Tarcísio candidato à presidência sem a existência de um nome forte representando a extrema-direita em São Paulo, Alckmin se converte com facilidade no principal nome do centro à esquerda no estado. Esse parece ser o cenário mais provável, no momento. O vice-presidente tem experiência, credibilidade política e revelou imensa maturidade operacional e capacidade de diálogo ao se desincumbir de todas as missões negociais que lhe foram dadas. O processo de reação ao tarifaço restaurou as pontes do vice, que outrora governou o estado por mais de 13 anos, com os setores do agronegócio e com o empresariado urbano. A lealdade respeitável que mantém com o presidente Lula aproximou-o de pequenos agricultores familiares, do MST, do MTST, de sindicatos e da classe média mais politizada de São Paulo, nichos eleitorais que sempre estiveram mais ao lado do PT e da esquerda em geral. A possibilidade de desembarque de Geraldo Alckmin na campanha paulista revoga o teto e as condições de voo nacional de Tarcísio. Para decolar, ele precisa calcular muito bem seu plano de voo e contabilizar bem certinho qual a equipe de controladores que deixará em terras paulistas.
Ronaldo Caiado é o peculiar caso de moinho de vento que está virando Dom Quixote e topa até ser uma espécie de Sancho Pança dessa novela sórdida que é o roteiro que a própria extrema-direita traça para tentar voltar ao poder. Repudiado por Jair Bolsonaro como legítimo representante da raça, Caiado ficou latindo de fora do canil o tempo inteiro dizendo que era um deles. Latiu, ganiu, latiu, choramingou… até apegou a uma nesga de informação – a de que Bolsonaro poderia apoiar um cenário de vários extremistas candidatos no campo bolsonarista – e passou a defender a mesma tese, mesmo à guisa de confirmação se o ex-presidente (quase presidiário) disse isso mesmo. Dono de uma trajetória política muito mais robusta do que a de Tarcísio de Freitas, tendo passado por vários mandatos na Câmara, por um meio mandato de senador, por dois mandatos de governador de Goiás, e até mesmo tendo sobrevivido politicamente a duas derrotas eleitorais – em 1989, para presidente, e em 1994, para governador do seu estado – Caiado devia ter tido a sabedoria de pôr como candidato a presidente sem a chancela de Jair Bolsonaro. Humilhou-se em busca dela, nunca a obteve, não tem a confiança do presidente de seu próprio partido, uma criatura egressa dos lodaçais malcheirosos da política pernambucana chamado Antonio Rueda, e está nesse momento contentando-se com migalhas de atenção dos extremistas. Quem não se dá ao respeito fica à disposição para usufruto da choldra. Ronaldo Caiado está nessa situação.
Por fim, Romeu Zema. Tenho, contudo, pudores e pruridos para tratar do tema aqui, uma vez que nunca me vi analisando personagens de programas de humor. É o que Zema: uma piada. De mau gosto, mas uma piada. É um zé-mané milionário, herdeiro, tentando se vender como um zé-ninguém. É dono de um raciocínio típico dos muares, mas quer ser visto como um border collie do bolsonarismo. Instalou em Minas Gerais o não-governo, a ausência de gestão, e saiu para passear seu modelito mula-sorridente pelo país. Não tenta sequer voar, como Tarcísio. Porém, trota e galopa pelo meio-oeste brasileiro em busca de um naco dos órfãos do bolsonarismo equestre.
A reação bem calibrada e estrategicamente centrada aos golpes do tarifaço de Donald Trump não só revigoraram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como lançaram-no com as turbinas restauradas na cena eleitoral. A reunião ministerial da última terça-feira foi prova disso. Lula recauchutou o programa de governo, restaurou o lema do nacionalismo como bandeira do seu campo político, deu rumo a uma equipe ministerial que muitas vezes para disfuncional, cobrou a devida lealdade a quem lhe deve esse mínimo e anunciou: tem plano de voo, tem bom serviço de monitoramento em solo, sabe reorientar as birutas dos aeroportos por onde tem passado nos últimos 40 anos de política e carrega na lataria uma marca facilmente reconhecível lá fora: a dos estadistas. Falida, tosca, perversa, inconsequente e estúpida, a direita brasileira não soube encontrar caminhos para sair do buraco para onde Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, militares extremistas e golpistas em geral a levaram. Será difícil chegar viva no fim do rally eleitoral de 2026.