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Filósofo Marcos Nobre antevia trama golpista de Bolsonaro já em 2021. Fux viveu-a dentro do STF

No livro “O Procurador” fica claro que o 8 de janeiro de 2023 começou a ser urdido com método por Jair Bolsonaro e seus militares adestrados três anos antes da intentona golpista

Por Luís Costa Pinto

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, integrante da 1ª Turma do STF que julga a ação Penal 2668 em que Jair Bolsonaro, Braga Neto e Augusto Heleno, entre outros, são réus por tentativa de golpe de Estado, deveria ter sido mais duro em sua inquirição ao ex-presidente e aos ex-generais de pijama na última terça-feira 10 de junho. Em “O Procurador”, livro lançado em setembro de 2024 (Costa Pinto, Luís – Geração Editorial) que escrutina a passagem de Augusto Aras pela Procuradoria Geral da República, um trecho crucial descreve a gênese da trama golpista ainda em 2021. A obra trata de citar, ainda, entrevista visionária do filósofo Marcos Nobre publicada em 6 de setembro de 2021. A Plataforma Brasília traz, a seguir, essa passagem fundamental de “O Procurador”:

O dia 6 de agosto de 2021 amanheceu com as edições impressa e virtual do jornal Folha de S Paulo brindando seus leitores com uma entrevista do filósofo e cientista político Marcos Nobre, concedida ao repórter Naief Haddad, que é um primor de antevisão analítica do que estava acontecendo no País e de como as coisas poderiam se desenrolar. Filho do ex-deputado federal Freitas Nobre, uma das vozes mais combativas na resistência à ditadura militar instalada a partir do golpe de 1964, Marcos Nobre alertava que o 7 de setembro daquele ano era a preparação milimetricamente organizada de uma ruptura institucional. E que ela levaria tempo. “O que Bolsonaro deseja é uma invasão do Capitólio organizada”, afirmava, referindo-se à tentativa de golpe de Estado empreendida em 6 de janeiro daquele mesmo 2021 nos Estados Unidos, quando Donald Trump quis evitar a consumação do resultado da eleição em que foi derrotado para Joe Biden (candidato Democrata). “A desarticulação da sociedade é tão grande que a impotência vira virtude. É como se a situação pudesse ser resolvida sozinha, como se a inércia fosse a melhor posição (‘não precisamos fazer nada, Bolsonaro já está derrotado’). Não temos um final feliz garantido”, disse ele a Naief Haddad.

Lida após tudo o que vivemos depois daquele 7 de setembro da primeira grande intentona golpista de Jair Bolsonaro, a entrevista de Nobre se revela uma projeção lapidar excepcional e vale a pena ser revisitada em tópicos:

O teatro daquelas manobras estava demarcado: o Eixo Monumental, em Brasília, no trecho em que se localiza a Esplanada dos Ministérios, e a Avenida Paulista, em São Paulo. Nos dois pontos, o então presidente Jair Bolsonaro discursaria presencialmente para uma massa de apoiadores cuidadosamente inflada e inflamada por seus movimentos prévios de articulação via redes sociais e perfis que lhe eram simpáticos na internet.

Na Capital da República, a segunda-feira de ponto facultativo nas repartições públicas e data “imprensada” entre um fim de semana e o feriado nacional do dia seguinte, permitiu que trios elétricos, caminhões, tratores e barracas montadas por apoiadores dos atos minuciosamente organizados a partir de uma retórica evidentemente golpista e de afronta às instituições estacionassem ao largo das calçadas do Eixo Estrutural e no vão da Rodoviária de Brasília, justo no acesso principal à via que dá acesso aos prédios ministeriais e ao Congresso Nacional. Dali, são dois quilômetros até a Praça dos Três Poderes, onde estavam localizadas as entradas principais das sedes do próprio Parlamento e do Supremo Tribunal Federal – alvos da ira dos bolsonaristas fermentada pelos discursos do presidente. A distância seria percorrida num movimento de invasão cadenciada da Esplanada. Tudo estava coreografado pelos estrategistas bolsonaristas e eles contavam com a adesão e a inação da Polícia Militar do Distrito Federal. Porém, aquartelados e em estado de prontidão em razão das negociações silenciosas estabelecidas pela Procuradoria Geral da República, pelo Conselho Nacional do Ministério Público e mesmo por ministros do STF, com a ciência e anuência dos comandantes militares, o apoio esperado pelos manifestantes – a inércia da PM – não ocorreu da forma pretendida. Foi por pouco.

Até o meio da tarde do dia 6 o bloqueio à invasão de veículos – ônibus, caminhões, tratores, carros de passeio – à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, funcionou. A partir das 17h, contudo, a primeira barreira da operação de segurança conhecida como “escudo do Planalto” foi facilmente superada pelos veículos congregados pelos bolsonaristas. Manifestantes e seus veículos de apoio avançaram da Rodoviária até a altura da Catedral da cidade, encurtado para apenas um quilômetro e meio a distância que os separava da Praça dos Três Poderes. O policiamento parecia extremamente permeável ao avanço dos militantes pró-Bolsonaro, que haviam atendido à convocação de comparecerem aos atos de protesto e repúdios contra os poderes Judiciário e Legislativo. Às 19h30 do dia 6 a segunda das três barreiras de contenção dos manifestantes e dos automóveis foi rompida sem resistência militar e uma horda começou a se deslocar na direção das sedes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Àquela altura, os dispositivos de segurança do Judiciário e do Legislativo já haviam sido acionados em alerta vermelho.

Parecia que a primeira tentativa de golpe de Estado tentado por Bolsonaro, com ele ainda sentado na cadeira presidencial, caminhava inexoravelmente para ser bem-sucedida. Mas, entrou em cena Luiz Fux, uma personagem que passeava ao largo das articulações preventivas entre a PGR e colegas seus, os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que acompanhavam com maior proximidade o garroteamento do apoio das polícias militares e mesmo dos comandos militares das Forças Armadas à convocação da intentona bolsonarista. O então presidente do Supremo Tribunal Federal telefonou para o ministro da Defesa e general da reserva Walter Braga Netto num tom ameaçadoramente resignado e frio. Braga Netto havia assumido o Ministério da Defesa em 29 de março daquele ano, quando o também general Fernando Azevedo e Silva deixou o posto junto com os comandantes das três forças militares. Embora tivessem integrado os núcleos quarteto discordava do rumo dado por Bolsonaro à escalada conflituosa entre as instituições republicanas e aquilo que acreditava liderar: o poder militar.

            – Ministro, eu não vou pedir GLO. Já disse isso ao general Matsuda – disse Fux ao militar que se vendia como cavalo do cão para fora do círculo íntimo de Bolsonaro, mas, era na verdade uma espécie de borra-botas do capitão que o chefiava.

O ministro do Supremo Tribunal Federal fazia referência à Garantia da Lei e da Ordem, que seria executada pelas Forças Armadas caso o presidente do STF pedisse o acionamento do dispositivo constitucional ao presidente da República. Era tudo o que Bolsonaro queria, assim como os bolsonaristas golpistas invocaram a mesma GLO em 8 de janeiro de 2023 (discorreremos sobre isso no capítulo seguinte. Contudo, era o padrão, como anteviu o filósofo Marcos Nobre). O general Yuri Matsuda era o Comandante Militar do Planalto naquele momento. Luiz Fux foi além ao explicar o porquê de não pedir GLO ao então ministro da Defesa:

– Há atiradores de elite que eu ordenei que fossem estrategicamente colocados na laje do prédio do Supremo Tribunal Federal. Vou mandar que abram fogo contra quem quiser invadir o STF e se eles romperem o terceiro bloqueio na Esplanada dos Ministérios. Já romperam dois. Se romperem o terceiro, darei ordem de atirar. Estou dentro do Supremo, e daqui não sairei.

            Braga Netto desligou o telefone com Fux e consultou o então procurador-geral da República, Augusto Aras, para saber se o presidente do Supremo Tribunal Federal podia fazer o que ameaçava fazer naquele 7 de setembro de 2021.

– Pode, claro. E ele está certo – respondeu Aras.

Jair Bolsonaro foi então avisado pelo seu aparelho militar que haveria uma dura repressão às hordas de apoiadores seus que compareciam a Brasília convocados por ele e por meio de suas redes e de seus perfis golpistas em aplicativos de mensagens. Fux fez seu recado chegar, com idêntica gravidade, ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.

– O que ele quer que eu faça? – chegou a perguntar Ibaneis a um interlocutor comum dele e de Fux. Ouviu uma resposta em revés:

– Que ponha a Polícia Militar para controlar o povo na Esplanada e mantenha a terceira e última barreira de acesso ao Congresso e ao STF – mandou dizer o presidente do Supremo à época.

A partir dali os soldados da Polícia Militar do Distrito Federal pareciam ter girado uma chave de comando. Mudaram a postura no trato com os manifestantes bolsonaristas. Os bloqueios foram restaurados, as abordagens se tornaram ríspidas e houve até mesmo a ocorrência de altercações isoladas entre PMs e manifestantes – com uso da força militar na contenção de bolsonaristas mais exaltados. O terceiro e último bloqueio que continha o acesso ao Supremo e à entrada principal do Congresso não foi rompido. Na manhã do dia 7 de setembro Jair Bolsonaro pôde discursar diante dos apoiadores arregimentados para ouvi-lo – e cometeu crimes, tanto ali quanto à tarde, na Avenida Paulista, em São Paulo, para onde se deslocou no meio do dia.

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