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	<title>BBC NEWS, Autor em PLATAFORMA BRASÍLIA</title>
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	<description>Informação, análise e entretenimento</description>
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	<title>BBC NEWS, Autor em PLATAFORMA BRASÍLIA</title>
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		<title>A brasileira que descobriu o passado nazista do próprio avô</title>
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		<dc:creator><![CDATA[BBC NEWS]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 May 2021 15:35:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[História - Nazismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde criança, Julie Lindahl sentia que a família guardava um segredo obscuro, mas não fazia ideia do que era. As últimas palavras do seu pai, no entanto, confirmaram que ela precisava de respostas. E foi assim que ela deu início a uma busca de sete anos que revelou o passado nazista de seu avô. A [&#8230;]</p>
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<p></p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/12E19/production/_115373377_20130917_115443.jpg" alt="Julie Lindahl com o avô na infância"/><figcaption>Legenda da foto,Julie, aos dois anos, com o avô em São Paulo — ele morava em uma fazenda no Mato Grosso do Sul e tinha ido visitá-la</figcaption></figure>



<p><strong>Desde criança, Julie Lindahl sentia que a família guardava um segredo obscuro, mas não fazia ideia do que era.</strong></p>



<p>As últimas palavras do seu pai, no entanto, confirmaram que ela precisava de respostas.</p>



<p>E foi assim que ela deu início a uma busca de sete anos que revelou o passado nazista de seu avô.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47142678">A segunda morte do médico nazista Josef Mengele no Brasil</a></li><li><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-45950325">Segunda Guerra Mundial: &#8216;como a dica de um oficial nazista salvou a vida de meus avós&#8217;</a></li></ul>



<p>Em entrevista à jornalista Andrea Kennedy do programa de rádio Outlook, da BBC, ela conta como esta descoberta desencadeou uma jornada transformadora à procura das vítimas das atrocidades do avô.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/1683C/production/_104602229_line976.jpg" alt="Línea"/></figure>



<p>Julie Lindahl nasceu no Rio de Janeiro, no fim da década de 1960. As fotografias do álbum de família mostram uma menina loirinha curtindo as praias brasileiras.</p>



<p>Filha de mãe alemã e pai americano, ela foi criada em dez países diferentes — e suas raízes acabaram se tornando uma questão central na sua vida.</p>



<p>Quando nasceu, seus avós maternos, que eram alemães, também moravam no Brasil. E ela desenvolveu uma relação muito próxima da avó.</p>



<p>&#8220;Ela era uma pessoa fascinante que viveu até os 103 anos, nasceu antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. E foi formada pela experiência daquela guerra.&#8221;</p>



<p>&#8220;Nós compartilhávamos vários interesses, o amor pela natureza, pela literatura, pela boa música&#8221;, enumera.</p>



<p>Mas havia certos aspectos nela que a deixavam bastante desconfortável.</p>



<p>&#8220;Ela tinha pontos de vista sobre algumas pessoas, certos grupos de pessoas, que eram muito perturbadores. E isso era difícil. Eu queria receber seu afeto, já que éramos muito próximas, mas ao mesmo tempo, eu tinha que ouvir comentários racistas bastante incômodos.&#8221;</p>



<p>Já o avô, Julie viu pela última vez aos três anos de idade, quando sua família deixou o Brasil. A foto acima, em que ela aparece segurando uma colher, é a única que ela tem ao lado dele.</p>



<p>Ele faleceu quando ela tinha nove anos. Mas deixou uma marca.</p>



<p>&#8220;Eu sabia muito pouco sobre ele, e procurava evitar esse assunto porque mencionar meu avô despertava muita emoção, uma emoção negativa, conflito e raiva na família — na minha mãe e nos irmãos dela, na minha avó também.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Silêncio-incômodo">Silêncio incômodo</h2>



<p>A verdade é que a casa da família era repleta de coisas não ditas. Havia algo tácito no ar, e Julie e a irmã sentiam isso desde pequenas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/59E0/production/_115380032_20130917_111734.jpg" alt="Julie Lindahl aos dois anos de idade em São Paulo"/><figcaption>Legenda da foto,Julie vestida de &#8216;dirndl&#8217;, traje típico alemão, em 1969, em São Paulo</figcaption></figure>



<p>&#8220;Minhas relações familiares estavam sendo asfixiadas por algo de que eu não sabia o suficiente. Havia raiva e indignação sendo expressas ao meu redor&#8221;, diz ela.</p>



<p>&#8220;E uma criança presume que fez algo errado quando os adultos estão infelizes. A criança pensa: Eu fiz algo impronunciável.&#8221;</p>



<p>Ela conta que acabou cultivando um sentimento de vergonha muito forte, que teve consequências para sua saúde física e mental.</p>



<p>&#8220;Eu tive anorexia, parei de comer por muitos anos. Foi uma espécie de autopunição pela vergonha&#8221;, revela.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Resgatando-o-passado">Resgatando o passado</h2>



<p>Quando Julie se tornou mãe, ela começou a questionar o silêncio que rondava a história da família. E a promessa que fez ao pai, em seu leito de morte, teve um papel decisivo nesse processo:</p>



<p>&#8220;Meu pai me pediu: &#8216;Cuide dos meus netos&#8217;.&#8221;</p>



<p>&#8220;E eu pensei: Para fazer isso direito, vou ter que olhar para o passado, porque sinto que há algo em mim que pode realmente fazer mal aos meus filhos, sentimentos de vergonha que podem fazer mal a eles&#8221;, explica.</p>



<p>Julie decidiu então confrontar o passado, seja lá qual fosse.</p>



<p>Ela sabia que a principal fonte de conflito na família girava em torno do nome do avô — e que ele e a avó haviam vivido na Polônia, território ocupado pela Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.</p>



<p>&#8220;Me perturbava muito a lembrança de certas conversas que havia tido com a minha avó, em que ela tentava me convencer que o Holocausto não havia acontecido, por exemplo. Ela tentava me convencer de que era uma conspiração da mídia mundial para depreciar a Alemanha&#8221;, relembra.</p>



<p>A avó seria então o ponto de partida para sua busca. E, certo dia, enquanto ela transcorria sobre a &#8220;vida maravilhosa que tinham na Polônia&#8221;, Julie a interrompeu e foi direto ao ponto:</p>



<p>&#8220;Perguntei diretamente se meu avô havia feito parte da SS (a tropa de elite do Partido Nazista).&#8221;</p>



<p>&#8220;E ela respondeu: &#8216;Claro que não, que ideia absurda&#8217;.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-verdade-sobre-os-avós">A verdade sobre os avós</h2>



<p>Mas a neta não se deu por satisfeita. Começou a estudar sobre a história do Terceiro Reich e as relações entre Polônia-Alemanha. E, em 2010, fez uma visita ao Arquivo Federal Alemão, em Berlim.</p>



<p>&#8220;Achar qualquer coisa nos arquivos era como encontrar uma agulha no palheiro. Os nazistas foram muito bons em destruir seus próprios documentos, e os aliados foram muito bons em bombardear lugares onde os documentos estavam&#8221;, explica.</p>



<p>Mas, para sua surpresa, foram encontradas 100 páginas de documentação a respeito do seu avô — e o conteúdo era assustador.</p>



<p>Os documentos mostravam que ele havia sido um dos primeiros entusiastas do Partido Nazista — havia se filiado ao mesmo em 1931, antes mesmo de Adolf Hitler tomar o poder na Alemanha. E o classificavam como um membro leal e fanático da SS, a organização paramilitar de elite nazista, conhecida pela brutalidade.</p>



<p>Se não bastasse tudo isso, os arquivos revelariam ainda algo mais sombrio, que Julie jamais poderia imaginar:</p>



<p>&#8220;O mais chocante de tudo, que eu realmente não esperava encontrar, porque não havia perguntado sobre minha avó, foram documentos preenchidos com a caligrafia dela, que reconheci das inúmeras cartas e cartões de aniversário que ela me enviou ao longo dos anos.&#8221;</p>



<p>&#8220;Reconhecer (a caligrafia dela) foi profundamente chocante e triste&#8221;, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Encontro-com-as-vítimas">Encontro com as vítimas</h2>



<p>Dois anos depois, Julie visitou o Instituto de Memória Nacional em Pozna, na Polônia, que forneceu a ela depoimentos de testemunhas, coletados em 1946, sobre as atrocidades cometidas por seu avô.</p>



<p>Durante a Segunda Guerra Mundial, ele tinha supervisionado propriedades rurais ocupadas pelos alemães na Polônia, sendo responsável por práticas de trabalho forçado e tortura, além de ter sido cúmplice do assassinato da população local.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/B8E9/production/_115373374_2012-06-0314.36.11.jpg" alt="Avô de Julie Lindahl na Polônia"/><figcaption>Legenda da foto,O avô de Julie (no canto direito da foto) supervisionava o trabalho forçado em propriedades rurais ocupadas na Polônia</figcaption></figure>



<p>&#8220;Os documentos continham sobretudo depoimentos de pessoas que tinham vivido nas propriedade administradas por ele. Alguns relatos eram muito, muito específicos&#8230; como (meu avô) ter espancado pessoas até ficarem inconscientes.&#8221;</p>



<p>Com a ajuda de Robert, um jovem arquivista e historiador polonês, ela saiu em busca de famílias na zona rural da Polônia que haviam sido vítimas do avô.</p>



<p>&#8220;Nos documentos, havia sobrenomes e nomes completos de pessoas que testemunharam, e também nomes de vítimas.&#8221;</p>



<p>&#8220;Robert corria no meio do campo, parava os tratores dos fazendeiros e mostrava os documentos, perguntando: &#8216;Vocês sabem onde essa e aquela família vivem?'&#8221;, relembra.</p>



<p>Para sua surpresa, a estratégia funcionou — e eles conseguiram localizar algumas famílias.</p>



<p>&#8220;A primeira família que encontramos era, na verdade, um casal, e o homem tinha vivenciado a suserania do meu avô na propriedade, quando tinha uns 20 anos. E ficou sentado, me encarando, estava com raiva.&#8221;</p>



<p>&#8220;Ele explicou algumas coisas que foram muito tristes de ouvir, sabe, que sua família havia sido torturada&#8230;&#8221;</p>



<p>&#8220;Não fiz as coisas que o machucaram e provavelmente destruíram a sua vida&#8230; Mas posso mostrar compaixão&#8221;, diz ela emocionada.</p>



<p>Ao fim da conversa, Julie conta que apertou a mão dele e o agradeceu, enquanto ele parecia desconcertado com a atitude dela.</p>



<p>O segundo encontro — desta vez com um senhor de 90 anos, que sofria de demência — foi mais perturbador.</p>



<p>Enquanto Robert fazia as perguntas, o idoso parecia distante, dando respostas confusas — até que algo na conversa o despertou:</p>



<p>&#8220;Quando Robert começou a dizer o sobrenome do meu avô, ele de repente entrou num túnel do tempo e foi parar naquela época. Ele estava revivendo um momento que era claramente muito assustador, dizia algo sobre &#8216;pessoas colocadas contra uma parede para serem baleadas'&#8221;, relata.</p>



<p>&#8220;Eu disse a Robert: &#8216;Temos que parar com essa entrevista agora, porque esse homem está muito angustiado e isso não é justo, está errado&#8217;.&#8221;</p>



<p>A conversa foi então interrompida, e o senhor se acalmou.</p>



<p>Depois desse episódio, Julie estava determinada a parar sua busca, mas Robert a convenceu a seguir adiante: havia mais uma família à sua espera.</p>



<p>Dessa vez, ela se deparou com um homem que era criança durante a ocupação da Polônia — e que estava disposto a contar tudo que havia visto e vivido.</p>



<p>&#8220;Ele era um menino de 10 anos na época, e seus pais e parentes trabalhavam nas propriedades (administradas por seu avô). Ele nos contou histórias de pessoas sendo espancadas até perderem a consciência, sendo gravemente maltratadas, ele mesmo também havia sido muito maltratado.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/17C39/production/_115373379_kajsagransson_vercredito.jpg" alt="Julie Lindahl"/><figcaption>Legenda da foto,&#8217;A culpa e vergonha se transformaram em responsabilidade&#8217;, diz Julie</figcaption></figure>



<p>Julie afirma que não começou essa jornada em busca de perdão — mas, à medida que sua busca avançava, &#8220;um sentimento muito forte, um desejo de pedir perdão, começou a vir à tona&#8221;.</p>



<p>E quando foi se despedir daquele homem que havia testemunhado as atrocidades do seu avô na infância, algo que ele disse provocou uma transformação dentro dela:</p>



<p>&#8220;Quando nos levantamos para nos despedir, pensei: Vou me ajoelhar aqui mesmo. E ele me segurou de uma forma, foi uma coisa estranha, ele segurou meus braços, olhou nos meus olhos e disse: &#8216;Não foi sua culpa, você não fez nada&#8217;.&#8221;</p>



<p>&#8220;Com aquele simples gesto e aquelas palavras, aquele homem abriu caminho para uma transformação: a culpa e vergonha se transformaram em responsabilidade&#8221;, diz ela.</p>



<p>&#8220;A partir deste momento, a vida foi diferente.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-revelação-da-avó">A revelação da avó</h2>



<p>No ano seguinte, Julie decidiu abrir o jogo com a avó sobre o que havia descoberto a respeito do passado da família. Ela estava morando na Alemanha na época, e tinha 100 anos.</p>



<p>&#8220;Em algum lugar dentro dela, eu acreditava fervorosamente que havia uma pessoa que queria se manifestar, expressar arrependimento e dizer simplesmente: &#8216;O que fizemos foi errado&#8217;. Teria sido o suficiente.&#8221;</p>



<p>Mas não foi isso que aconteceu:</p>



<p>&#8220;Em vez disso, ela se endireitou na cadeira, olhou para mim, retraiu a mão (que estava segurando a dela) e defendeu tudo o que eles fizeram, tudo que meu avô tinha feito. Ela disse que os (membros da) SS eram os homens mais lindos que já pisaram na Terra.&#8221;</p>



<p>&#8220;Foi um dos piores momentos da minha vida. Porque percebi que aquela pessoa que eu amava, que conhecera durante toda a minha vida, de quem me sentia tão próxima, na verdade, eu não conhecia.&#8221;</p>



<p>A avó de Julie morreu em 2014, pouco antes de completar 103 anos.</p>



<p>A neta passou sete anos pesquisando a história da família — e chegou a voltar ao Brasil para buscar informações sobre a vida dos avós por aqui.</p>



<p>Julie conta sua jornada no livro&nbsp;<em>The Pendulum: A Granddaughter&#8217;s Search for Her Family&#8217;s Forbidden Nazi Past</em>&nbsp;(&#8220;O Pêndulo: A busca de Uma neta pelo passado nazista proibido da família&#8221;, em tradução livre), uma história que ela acredita que tinha o dever de narrar.</p>



<p>Durante o lançamento do livro na Suécia, onde mora atualmente, ela conta que recebeu um telefonema marcante da filha que resume a sua busca:</p>



<p>&#8220;Ela disse: &#8216;Mãe, quero dizer o quanto estou orgulhosa de você!'&#8221;</p>



<p>&#8220;Para mim, esse foi um momento muito importante. Aquele sentimento de vergonha tinha sido substituído por um sentimento de orgulho por assumir responsabilidades. Era isso que eu procurava&#8221;, afirma.</p>



<p>Atualmente, Julie dirige uma organização sem fins lucrativos chamada Stories for Society, que tem o objetivo de ajudar jovens a entender melhor as questões sociais por meio de histórias narradas em grupo.</p>



<p><a href="https://www.bbc.co.uk/programmes/w3cszdr5">Ouça aqui (em inglês) a íntegra do programa de rádio Outlook</a></p>
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		<title>‘Não tem UTI, amo vcs’: a história por trás do tuíte viral que revela mensagens de mãe morta por covid-19 no RS</title>
		<link>https://plataformabrasilia.com.br/noticias/nao-tem-uti-amo-vcs-a-historia-por-tras-do-tuite-viral-que-revela-mensagens-de-mae-morta-por-covid-19-no-rs/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[BBC NEWS]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Mar 2021 19:27:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Pandemia - drama brasileiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vinícius Lemos Da BBC News Brasil em São Paulo &#8220;Eu vou pra UTI, só não tem vaga em nenhum lugar. Amo vocês&#8221;, escreveu a comerciante Valéria de Abreu em mensagens para a filha mais velha, a assistente comercial Giulia Mariana, no sábado (27/02). Valéria, que tinha 42 anos, estava internada em decorrência de complicações da [&#8230;]</p>
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<ul class="wp-block-list"><li><strong><em>Vinícius Lemos</em></strong></li><li>Da BBC News Brasil em São Paulo</li></ul>



<p></p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/A404/production/_117388914_prin.jpg" alt="Última conversa de WhatsApp entre Giulia e a mãe, Valéria"/><figcaption>Legenda da foto,Em último contato, Valéria contou à filha sobre a dificuldade de conseguir uma vaga de UTI no Rio Grande do Sul</figcaption></figure>



<p><strong>&#8220;Eu vou pra UTI, só não tem vaga em nenhum lugar. Amo vocês&#8221;, escreveu a comerciante Valéria de Abreu em mensagens para a filha mais velha, a assistente comercial Giulia Mariana, no sábado (27/02).</strong></p>



<p>Valéria, que tinha 42 anos, estava internada em decorrência de complicações da covid-19. Em um hospital público de Esteio, município do Rio Grande do Sul, ela passou seus últimos dias de vida em meio ao caos ligado à falta de leitos em diversas regiões do país, em razão do aumento de casos do novo coronavírus no Brasil.</p>



<p>O último contato da comerciante com a filha mais velha, por meio do WhatsApp, foi compartilhado pela jovem de 23 anos no Twitter horas após a morte de Valéria, na terça-feira (02/03).</p>



<p>&#8220;Essa foi a última mensagem que tive da minha mãe (&#8230;) Usem máscara, não saiam se não for necessário, por favor&#8221;, escreveu Giulia na publicação, que já teve mais de 125 mil curtidas e mais de 13 mil compartilhamentos na rede.</p>



<p>A situação vivida por Valéria ilustra o caos vivido no país em decorrência da covid-19 — nos últimos dias, o Brasil registrou sucessivos recordes de mortes e se aproximou de 2 mil óbitos pelo novo coronavírus em 24 horas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Internação-e-falta-de-UTI">Internação e falta de UTI</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/13220/production/_117386387_giulia1.jpg" alt="Valéria segura a filha, Giulia, quando a jovem ainda era bebê"/><figcaption>Legenda da foto,Valéria com a filha mais velha: comerciante teve Giulia aos 18 anos</figcaption></figure>



<p>A família relata que Valéria sempre adotou os cuidados necessários para que não fosse infectada pelo coronavírus.</p>



<p>Os parentes acreditam que ela, que era dona de uma sorveteria na cidade de Esteio, tenha sido infectada pelo coronavírus enquanto atendia algum cliente. &#8220;As pessoas pouco se importavam. A minha mãe cansou de brigar com clientes (para que usassem máscara)&#8221;, relata Giulia.</p>



<p>Os primeiros sintomas da comerciante começaram por volta de 14 de fevereiro, quando ela passou a tossir muito. Dias depois, fez um teste que apontou que ela e o marido estavam com o novo coronavírus. O casal ficou isolado. Giulia, que mora com a avó em outra casa, relata que a mãe chegou a ir algumas vezes ao hospital, mas logo era liberada.</p>



<p>&#8220;Os hospitais estavam cheios, então os profissionais de saúde viam alguma melhora nela e a liberavam para que outra pessoa pudesse ser atendida também&#8221;, relata a jovem.</p>



<p>Em 20 de fevereiro, a situação se agravou. Valéria, que tinha diabetes e asma, teve os pulmões duramente comprometidos pelo coronavírus. Ela foi internada na área de emergência de uma unidade de saúde pública.</p>



<p>&#8220;Ela sempre mandava mensagens para a gente porque podia ficar com o celular enquanto estava internada. Porém, ninguém podia visitá-la, só o meu pai que podia ir para levar algo que ela precisasse&#8221;, relembra a jovem.</p>



<p>No último sábado, o quadro de Valéria se agravou ainda mais. Os médicos orientaram que ela fosse encaminhada para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Mas diante do cenário de falta de leitos no Rio Grande do Sul, ela não conseguiu.</p>



<p>Como em diversas partes do Brasil, a&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56272391">atual situação da pandemia no Rio Grande do Sul</a>&nbsp;é considerada extremamente preocupante. O cenário é o pior desde os primeiros registros de covid-19. Há fila de espera por um leito de UTI. O governo do Estado avalia o aluguel de contêineres refrigerados para acomodar um eventual excesso de corpos.</p>



<p>&#8220;Ela precisava disso (um leito de UTI). Ligamos para hospitais, até do litoral, inclusive particulares, e nada. Havia um leito em um hospital de Santa Maria, mas era a cinco hora de viagem e os médicos avisaram que ela não aguentaria o trajeto&#8221;, diz Giulia à BBC News Brasil.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/15930/production/_117386388_066254f0-459c-4f7a-98b2-b42db3f9466d.jpg" alt="Print do Tweet de Giulia com a última conversa com a mãe no WhatsApp"/><figcaption>Legenda da foto,Publicação de jovem viralizou no Twitter e teve mais de 125 mil curtidas</figcaption></figure>



<p>&#8220;A falta de UTI se dá pelo colapso da rede de saúde, como já haviam dito que aconteceria desde o ano passado, mas ninguém levou a sério&#8221;, acrescenta a jovem.</p>



<p>Quando soube da situação da mãe, Giulia mandou as mensagens para saber como ela estava.</p>



<p>&#8220;Mãe, eu tô torcendo por ti. Eu te amo muito&#8221;, escreveu a jovem. &#8220;Tu tem que ser firme. Tem que me ver formar&#8221;, acrescentou a filha para a mãe, nas mensagens por WhatsApp. Foi o último contato entre elas.</p>



<p>&#8220;A saturação dela ficou muito baixa e ela precisou ser intubada. O médico disse ao meu pai que o quadro dela era grave e explicou que o problema era a asma dela e um quadro de pneumonia&#8221;, relata.</p>



<p>Sem leito de UTI, a comerciante permaneceu na área de emergência. &#8220;O hospital fez o possível para equipar o leito dela (na emergência). Mesmo com ajuda do respirador, a saturação dela não melhorava&#8221;, relata Giulia.</p>



<p>&#8220;Foi tudo muito terrível e muito rápido&#8221;, lamenta Giulia. Na terça-feira, a comerciante teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.</p>



<p>&#8220;Eu fico muito frustrada. Se não fossem as aglomerações e falta de posicionamento decente dos governos, minha mãe poderia estar aqui ainda&#8221;, diz a jovem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Conscientização">Conscientização</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/F224/production/_117388916_giulia3.jpg" alt="Giulia e Nathalia posam para foto"/><figcaption>Legenda da foto,Giulia (de óculos) e Nathalia são as filhas mais velhas de Valéria. Família é da cidade de Esteio (RS)</figcaption></figure>



<p>Depois da morte da mãe, Giulia decidiu compartilhar em seu perfil no Twitter as últimas mensagens trocadas entre elas para tentar conscientizar outras pessoas sobre a gravidade da covid-19.</p>



<p>&#8220;Fiquei em choque em como (a publicação) viralizou. A postagem foi, acima de tudo, um desabafo&#8221;, diz a jovem à BBC News Brasil.</p>



<p>Depois da repercussão, ela recebeu inúmeras mensagens de carinho. A jovem agradeceu as manifestações na rede social. &#8220;Não estou conseguindo responder as pessoas porque não tenho forças&#8221;, escreveu no Twitter.</p>



<p>&#8220;Uma das piores partes é que ninguém pode ou quer vir me ver e dar um abraço, por causa da covid-19. Vocês não têm noção de como é solitário&#8221;, desabafou Giulia na rede social — ela está com suspeita de covid-19 e aguarda o resultado do exame.</p>



<p>Por meio do Twitter, a jovem recebeu diversos relatos de pessoas que também perderam parentes para a covid-19, que já matou mais de 260,9 mil pessoas no país. Nas mensagens, muitos relataram a tristeza após a morte do ente querido em decorrência do coronavírus.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/CB14/production/_117388915_giulia2.jpg" alt="Valéria e o esposo, Carlos"/><figcaption>Legenda da foto,Valéria e o marido, Carlos Abreu: casal estava junto havia mais de duas décadas</figcaption></figure>



<p>&#8220;Sinto muito pela sua perda. Essa foi a última mensagem com a minha mãe antes de ela ir pra UTI. Depois ela só foi piorando. Hoje só restam a saudade e um aperto no coração&#8221;, escreveu o universitário Kayk Cezarino, de 27 anos.</p>



<p>Na postagem, ele compartilhou mensagens de setembro passado, nas quais diz para a mãe que a ama e que a situação dela irá melhorar. Ela morreu dias depois, em decorrência da covid-19.</p>



<p>&#8220;Senti sua dor daqui! Perdi meu pai também (em razão da covid-19), vai fazer um mês! Dói muito, muito. É avassalador!&#8221;, escreveu uma outra jovem.</p>



<p>Além de Giulia, Valéria também deixa outras duas filhas, uma jovem de 22 e uma garota de oito anos. &#8220;A minha mãe era o meu porto seguro. Nós teremos que aprender a caminhar sem a segurança de ter alguém como ela para nos acolher&#8221;, diz a primogênita à BBC News Brasil.</p>



<p>&#8220;Eu escolhi o caixão mais bonito que tinha para ela. Espero que ninguém mais tenha que passar por essa dor tão cedo na vida&#8221;, escreveu a jovem no Twitter.</p>



<p>Leia clicando aqui a reportagem originalmente publicada no site da BBC Brasil: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56284846?at_custom4=D0706B58-7DA4-11EB-B6FE-9AF939982C1E&amp;at_custom2=facebook_page&amp;at_custom3=BBC+Brasil&amp;at_custom1=%5Bpost+type%5D&amp;at_campaign=64&amp;at_medium=custom7&amp;fbclid=IwAR29x6VG9d4urccxB3BhFPmU5s-INQWwNZFsZxdNStNHKWBUUDRVg-A-EZ0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56284846?at_custom4=D0706B58-7DA4-11EB-B6FE-9AF939982C1E&amp;at_custom2=facebook_page&amp;at_custom3=BBC+Brasil&amp;at_custom1=%5Bpost+type%5D&amp;at_campaign=64&amp;at_medium=custom7&amp;fbclid=IwAR29x6VG9d4urccxB3BhFPmU5s-INQWwNZFsZxdNStNHKWBUUDRVg-A-EZ0</a></p>
<p>O post <a href="https://plataformabrasilia.com.br/noticias/nao-tem-uti-amo-vcs-a-historia-por-tras-do-tuite-viral-que-revela-mensagens-de-mae-morta-por-covid-19-no-rs/">‘Não tem UTI, amo vcs’: a história por trás do tuíte viral que revela mensagens de mãe morta por covid-19 no RS</a> apareceu primeiro em <a href="https://plataformabrasilia.com.br">PLATAFORMA BRASÍLIA</a>.</p>
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